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CBF vive resquícios do regime militar ao cercear a liberdade de expressão

 

Técnico do Botafogo, Paulo Autuori será julgado por criticar à CBF

Por Anésio Júnior

A redemocratização do Brasil, depois de um longo período do regime militar, veio com muita luta e sacrifício, mas os resquícios daquela época ainda ficaram em alguns seguimentos, onde a liberdade de expressão é cerceada.

Um deles é no esporte. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol), antiga CBD, criada em 20 de agosto de 1914, e que teve forte influência no governo militar, na década de 70, até hoje é conduzida de forma truculenta. Ai de quem ouse criticar os erros da entidade.

O técnico do Botafogo (RJ), Paulo Autuori, por exemplo, está na pauta de julgamento do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, por suas críticas à CBF logo após o clássico contra o Flamengo.

“Hoje fomos eficientes porque fizemos o gol, mas não conseguimos sair com a vitória. Nada a falar com relação à arbitragem e à interpretação. E tudo a falar sobre a conjuntura do futebol brasileiro. É muito fraca e é suspeita. Porque as coisas acontecem sempre da mesma maneira. Chega um momento que cansa”. Por essa declaração, Autuori pode ser punido.

Ao longo dos anos, a CBF usa a censura como forma de intimidação. Mesmo quando a cúpula da entidade esteve envolvida em atos de corrupção, que acabou com a prisão de dois ex-presidentes, José Maria Marim e Ricardo Teixeira (Marim continua preso), os clubes são proibidos de se manifestar.

Foram muitos os casos em que a CBF cerceou a liberdade de expressão e ameaçou punir quem a criticasse.

Em 2018, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva chegou a julgar Emerson Sheik que disse que a “CBF era uma vergonha”. O jogador foi enquadrado em dois artigos: ofensa à arbitragem e assumir atitude contrária à disciplina ou à moral desportiva.

A ação do indisciplinado Emerson foi interpretada de uma forma ligeiramente assustadora pelo procurador do STJD, Paulo Schmitt, que viu uma “atitude reiterada de afronta e reclamação contra instituições e autoridades com claro intuito intimidatório e desrespeitoso através da mídia”.

Faltou apenas chamar o jogador de “subversivo”, dizer que ele “quebrou a hierarquia” ou usar qualquer outro termo que ouvíamos em épocas mais tristes da história brasileira.

O conceito de liberdade de expressão – garantida na Constituição Federal – compreendido pela organização para qual Schmitt trabalhava, não considerou que um jogador possa achar a administração da CBF uma vergonha. Para eles, alguém que acha isso precisa ser punido, e outros jogadores que tentem fazer o mesmo, inibidos.

É tanta a preocupação de pessoas ligadas à CBF para abafar qualquer tipo de crítica pública, mesmo a mais inocente, que fica difícil acreditar que sejam ações isoladas.

Em alguns jogos os árbitros atrasaram o início das partidas para que a polícia retirasse faixas polêmicas das arquibancadas contra CBF e federações estaduais.

Em 2012, o Atlético Mineiro estava brigando pelo título com o Fluminense.  Parte da torcida ficou bastante irritada e postou mensagens como “Apito amigo”, “vergonha CBF” e “vergonha STJD”.

O clube acabou julgado porque, no entendimento da procuradoria, os mosaicos só poderiam ter sido montados com a conivência da diretoria.

A CBF está sempre ameaçando punir os clubes diante das manifestações das torcidas

Em 2011, o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, teve que enfrentar uma série de protestos pelo país, depois de acusações sérias de corrupção. O presidente da Federação Catarinense, Delfim Pádua, no entanto, publicou uma nota oficial dizendo que excluiria qualquer torcedor que levasse cartazes contra o “amigo que sempre deu suporte ao futebol catarinense”.

Por intervenção do Ministério Público, que ameaçou multar a FCF em R$ 100 mil caso algum torcedor fosse retirado, os protestos puderam acontecer no clássico entre Avaí e Figueirense.

No clássico São Paulo e Flamengo, o árbitro Alício Pena Junior ameaçou dar cartão amarelo para cada jogador que cruzasse os braços em protesto à CBF, naquela manifestação coletiva do Bom Senso.

Os jogadores deram um drible no árbitro e passaram um minuto trocando lançamentos e passes, sem buscar o gol, e depois aplaudiram. Burlaram a tentativa de censura e ainda fizeram o apitador de bobo, correndo de um lado para o outro à toa.

Saldanha enfrenta regime militar

O amor escândalo de censura no futebol brasileiro envolveu o ex-técnico da Seleção Brasileira, João Saldanha. A bela campanha do Brasil nas Eliminatórias não foi suficiente para garanti-lo no cargo. Saldanha foi demitido a mando do presidente da República, general Emílio Garrastazu Médici.

João Saldanha foi demitido a pedido do presidente Médici

Em fevereiro de 1969, a CBD anunciou Saldanha como o novo técnico da seleção. Alinhada ao regime militar por meio da Comissão de Desportos do Exército, a CBD, mesmo ciente da militância de esquerda do jornalista, resolveu apostar em seu nome na tentativa de sufocar a forte crítica da imprensa que recaia sobre o escrete nacional.

Com o discurso de montar um “time de feras”, ele aceitou o convite e convocou os melhores jogadores do país em atividade. Sob seu comando, craques como Pelé, Tostão, Gerson e Dirceu Lopes empilharam uma sequência de seis vitórias em seis jogos nas Eliminatórias e carimbaram o passaporte do Brasil para a Copa, resgatando o orgulho dos torcedores pela seleção.

Apesar do sucesso e da popularidade como treinador, Saldanha não deixou de atacar a ditadura, principalmente após a ascensão do general Emílio Garrastazu Médici ao poder.

O regime militar endureceu a repressão a integrantes do Partido Comunista. No fim de 1969, o assassinato de Carlos Marighella, um amigo de longa data, despertou de vez a ira do treinador da seleção.

Ele montou um dossiê, em que citava mais de 3.000 presos políticos e centenas de mortos e torturados pela ditadura brasileira, e o distribuiu a autoridades internacionais em sua passagem pelo México na ocasião do sorteio dos grupos da Copa, em janeiro de 1970.

Desde então, o governo de Médici iniciaria um esforço velado nos bastidores para derrubar João Saldanha do cargo. Em março, o treinador foi questionado por um repórter sobre o pedido do general, que, assim como ele, era gaúcho e gremista, para convocar o atacante Dario, o Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro.

Saldanha não pestanejou: “Ele [Médici] escala o ministério, eu convoco a seleção”. Duas semanas depois de sua resposta atrevida, foi demitido da seleção e deu lugar a Zagallo, que, em poucos meses, conduziria “as feras do Saldanha” ao tricampeonato mundial.

Contou com o auxílio de Cláudio Coutinho, um capitão do Exército que, ainda na década de 70, também se tornaria técnico da seleção.

Ex-presidente Médici cumprimenta o rei Pelé ao recepcionar a seleção no Palácio do Planalto

Dadá Maravilha foi convocado por Zagallo, mas não disputou nenhuma partida na Copa. Mais tarde, revelou que João Havelange, então presidente da CBD, teria confidenciado que despediu Saldanha por imposição de Médici.

“O regime não admitia a possibilidade de um líder oposicionista tão expressivo como o Saldanha voltar do México consagrado e venerado pelo povo”, conta o jornalista Carlos Ferreira Vilarinho, autor do livro “Quem derrubou João Saldanha”.

Em uma entrevista ao programa Roda Vida, em 1985, o próprio Saldanha resumiu o desenrolar de sua queda diante das pressões do governo. “Considero Médici o maior assassino da história do Brasil. Ele nunca tinha visto o Dario jogar. Aquilo foi uma imposição só para forçar a barra. Recusei um convite para jantar com ele em Porto Alegre. Pô, o cara matou amigos meus. Tenho um nome a zelar. Não poderia compactuar com um ser desses”.

Passada a euforia pelo tri, Saldanha manteve seu tom crítico e a intensa atividade política, que ajudaria a derrubar o regime militar 15 anos depois.

Morreu durante a cobertura da Copa de 1990, na Itália, aos 73 anos. Em 1988, uma das últimas vezes em que voltou a tocar na ferida que o incomodava, escreveu sobre sua demissão com a altivez de sempre:

“A pressão foi ficando insuportável. Por gente da própria CBD e da ditadura. Era difícil tolerar um cara com longa trajetória no Partido Comunista Brasileiro ganhando força, debaixo da bochecha deles”. Sem filtros, sem freio. Assim vivia o João Sem-Medo.

É, pois é!

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