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Seriam Bolsonaro, Trump e Salvini líderes populistas como Mussolini?

O escritor italiano Antonio Scurati ganhou o prêmio literário Strega 2019 com “M. O Filho do Século”, um dos mais prestigiados de seu país

O escritor italiano Antonio Scurati, nascido em Nápoles, conta que teve “uma luz” ao assistir a um vídeo de arquivo de Benito Mussolini, líder fascista que governou a Itália entre 1922 e 1943;.

Ele diz que enquanto fazia uma pesquisa para um de seus livros, viu o “Duce” discursar veementemente contra as pessoas que ocupavam a Piazza Venezia, grande praça de Roma.

Scurati diz que se lembra com clareza que, ao ver Mussolini fazendo um de seus discursos típicos, teve um momento de exaltação: “Mas isso nunca foi mostrado por ninguém!”

“Quero dizer”, explica Scurati em uma conversa telefônica com a BBC News Mundo, serviço em língua espanhol da BBC, “que existe uma extensa literatura acadêmica, historiográfica e de ensaios sobre Mussolini e o fascismo. Mas ninguém escreveu um romance sobre Mussolini.”

Em 2018, cerca de quatro anos depois daquela “luz” — e de consultas a milhares e milhares de documentos, livros, recortes de jornais, arquivos —, Scurati publicou o livro M, O Filho do Século (editora Intrínseca), um romance histórico no qual Mussolini é o protagonista.

O autor define a obra como um “romance documentário”, pois, como explica uma nota no início do livro, “todos os fatos, os personagens, os acontecimentos, os diálogos não são inventados, mas documentados historicamente”.

“Até o seu pensamento”, diz Scurati, que ocupa o primeiro e o último dos curtos capítulos. O livro é o primeiro volume de uma trilogia sobre a vida do Duce.

A trilogia, uma vez publicada, será transformada no roteiro de uma série internacional de televisão dirigida por, antecipa Scurati, “um renomado cineasta sul-americano que viveu a tragédia de uma ditadura em seu país”.

A história de M, O Filho do Século começa em 23 de março de 1919 com a fundação do movimento Fasci di combattimento (Grupos de combate, em tradução livre) em Milão, e termina em 3 de janeiro de 1925 quando o Duce, já presidente da Itália, assume em frente ao Parlamento “a responsabilidade política, moral e histórica” ​​pelo assassinato do adversário socialista Giacomo Matteotti, morto no ano anterior.

Esse momento é o que muitos historiadores consideram o início do regime totalitário fascista.

Mas como é possível escrever um romance inédito e original sobre um assunto do qual todos sabem não apenas o final, mas até os eventos intermediários?

“Esse foi um dos desafios deste projeto”, diz Scurati. “Por essa razão, estruturei o romance imergindo o leitor no fluxo dos eventos conforme eles ocorreram. Como se a história pudesse ter tomado outras direções e o que aconteceu a seguir não fosse conhecido.”

“Queria captar os fatos sob a perspectiva de quem os viveu”, acrescenta o escritor italiano. “E não sob o ponto de vista de um historiador que a tudo olha de cima, como um pequeno deus que julga os fatos à distância”.

“Os homens que viveram aquela época em muitos casos não entendiam o que estava acontecendo, pois estavam cegos. E eu queria que o leitor tivesse essa mesma sensação.”

Esta, segundo ele, constitui uma das razões do sucesso do livro, que na Itália já vendeu mais de 300 mil exemplares. No Brasil, o romance foi lançado em janeiro deste ano.

O livro, que tem mais de 800 páginas, funciona como uma crônica meticulosa do agitado clima social, político e econômico que se vivia na Itália naquela época.

Destaca-se em suas páginas a mistura de oportunismo, inteligência, cinismo, energia — sexual e política — e falta de escrúpulos que caracteriza o Duce.

Um personagem, diz Scurati, cujo conhecimento ainda é essencial para entender o que acontece hoje.

A BBC News Mundo conversou com o escritor por ocasião de sua participação no Hay Festival de Querétaro, no México, que ocorre nesta semana de maneira virtual.

A entrevista:

BBC – Por que você considera Mussolini o ‘filho do século 20’?

Antonio Scurati – Por um lado, eu queria esclarecer que Mussolini não é o pai do século 20, mas sim um produto daquela época. E também para sublinhar que ele foi o filho preferido do século 20.

BBC – Por que ‘filho preferido’?

Scurati – Não faz sentido que ele não seja um alienígena ou um bufão, um louco ou um demônio. Não. Ele mostrou com força sua vocação, o que culminará em uma grande tragédia política.

Não é por acaso que o fascismo é uma das últimas grandes invenções italianas que atingiram o mundo.

O fascismo influencia a história e os protagonistas do século 20, começando com Hitler e ou o nazismo, e passando por outros modelos políticos, tanto europeus quanto latino-americanos.

Não está claro que Juan Domingo Perón (ex-presidente da Argentina), por exemplo, em sua primeira etapa política, idolatre Mussolini. Ele viu compulsivamente os vídeos em que Mussolini apareceu, e considerou o fascismo como predecessor ou como o terceiro caminho entre o capitalismo e o comunismo, algo que procurava.

Benito Mussolini e Adolf Hitler foram aliados durante a Segunda Guerra Mundial e tinham um relacionamento pessoal

BBC – Se Mussolini é o filho do século 20, sua mãe metafórica é a violência e sua expressão mais extrema, a guerra?

Scurati – Sem dúvida. Eu defino a forma fascista de violência como hiperviolência, que tem suas raízes nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

Ou seja, uma violência que não era mais humana, mas da qual todos foram vítimas, mesmo aqueles que a praticaram contra outros homens.

E Mussolini, no início de sua aventura política, sabia que poderia contar com duas armas para atingir seus objetivos.

Um era o jornal que dirigia, o “Popolo d’Italia”. Ele foi um jornalista que inventou uma nova forma de fazer propaganda.

BBC – E a outra arma?

Scurati – A outra foram os grupos de violentos fascistas, que se uniram pela experiência da Primeira Guerra Mundial. Todos eram profissionais da violência.

O fascismo é o primeiro movimento político a ser equipado com uma milícia paramilitar, que corresponde exatamente a seus seguidores.

O problema é quando essa violência minoritária e quase profissional chega ao poder e se torna objeto de desejo político.

O ‘Duce’ realizava periodicamente discursos na varanda do Palácio Venezia, em Roma, que contavam com a presença de milhares de pessoas

BBC – O que você quer dizer com isso?

Scurati – Acontece que milhões de italianos — e estou pensando no pequeno empresário ou no simples funcionário público, pequeno-burguês que não é violento — de repente passam a temer que a revolução socialista lhes tire tudo o que possuem.

Então eles começam a ficar fascinados com aquela violência do fascismo. Eles querem isso como uma possível solução para seus problemas.

Este é o ponto de inflexão: esses poucos profissionais da violência tornam-se o símbolo de uma solução fácil, imediata e rápida para a complexidade da realidade e da vida democrática, que começa a parecer inconclusiva, ineficaz e decepcionante.

E isso está acontecendo de novo, também na Europa.

O fundador do fascismo, Benito Mussolini, governou a Itália entre 1922 e 1943.

BBC – Como todo romance históricos, então seu livro também aspira dizer algo sobre o momento atual?

Scurati – Olha, creio que uma das razões do sucesso deste livro é que muitos leitores procuram e encontram nele um mapa cognitivo para decifrar e se orientar num presente político em que se sentem perdidos.

Essa não era minha intenção no início. Acredito que a literatura não tenha outro objetivo senão contar a condição humana. No entanto, enquanto o escrevia, percebi que os ecos do ocorrido há 100 anos também podiam ser ouvidos no presente.

BBC – Ao dizer isso você pensa em algum acontecimento em particular?

Scurati – Sim, no populismo. Mussolini configura-se como o protótipo do líder populista dos 100 anos seguintes, até hoje.

Com uma ressalva: existem muitas diferenças entre o fascismo e os atuais partidos populistas, começando pela violência.

Os fascistas usaram a violência desde o início como um elemento sistemático da luta política. Por outro lado, hoje os partidos populistas são geralmente não violentos, limitam-se à violência verbal e operam dentro do sistema democrático.

Mas, se retirarmos o componente propriamente fascista de Mussolini, notamos que permanece o arquétipo do líder populista, isto é, daquele líder que consegue guiar as massas, que cheira seus humores — quase sempre são mal-humorados, raiva, medo, ressentimento — e os apoia.

Nesse sentido, Mussolini é o arquétipo de Jair Bolsonaro, de Donald Trump, de Matteo Salvini (líder da extrema-direita italiana). Mas também de líderes populistas de esquerda. Todos eles têm convicções ou ideias não vinculadas à realidade.

 

BBC – Eles são, então, os filhos metafóricos de Mussolini?

Scurati – Eu prefiro dizer que eles são seus netos ou bisnetos.

Deixe-me explicar: para encontrar os filhos metafóricos de Mussolini, deveríamos voltar pelo menos uma geração. Mas aqueles que aludem direta e conscientemente ao legado do fascismo estão basicamente fora da história. Por mais aterrorizantes e horríveis que sejam, eles são e continuarão a ser uma minoria.

Em vez disso, esses “netos” de hoje, descendentes indiretos e inconscientes de Mussolini, eu os considero mais perigosos.

Se Salvini, digamos, diz duas ou três bobagens, ele as diz de forma efetiva e direta, como se nosso único problema (da Itália) fossem os migrantes, e que temos que jogá-los ao mar. Enfim, essa é uma forma incrível de violência, uma redução brutal e violenta da complexidade da realidade.

E isso é um perigo.

Mussolini era casado com Rachele Guidi, mas teve uma larga lista de amantes

BBC – Você já cogitou a possibilidade, ou mesmo o risco, de que os leitores fiquem fascinados pelo protagonista do livro?

Scurati – Sim, claro. Eu pertenço ao que um amigo meu chama de “a geração dos últimos meninos do século passado”.

Ou seja, somos os últimos a ter sido educados intelectual e civicamente nos ideais do antifascismo e no mito da resistência contra o nazifascismo.

Desde o primeiro momento em que comecei a escrever este livro, me perguntei qual estratégia narrativa deveria adotar para evitar que o público tivesse empatia por Mussolini.

E por isso fiz uma escolha radical: não há um único diálogo, personagem ou acontecimento que não tenha sido documentado. Há uma adesão total e rigorosa às fontes históricas.

Os corpos do ‘Duce’, de sua parceira Claretta Petacci e de outros fascistas foram pendurados pelos pés e exibidos na Piazzale Loreto de Milão em 29 de abril de 1945.

Fonte: BBC News Mundo

 

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